O Poeta era Macaco
Pobre do poeta…
Enquanto chorava, sofria, agonizava
e escrevia sua dor naquele caderninho,
alguém apreciava.
Crueldade era o que faziam.
Expor sua fragilidade assim,
aos quatro ventos, era desumano!
Era fazê-lo um mero macaco de circo!
Enquanto ele sofria e escrevia
a platéia aplaudia, e alguém por trás daquilo
sorria… E ele cada vez mais chorava.
Pobre, pobre poeta…
Sua dor é seu treinador;
e o papel é seu picadeiro.
João, 60 Mil Anos
Jairo era meio louco
Jairo não se contentava só em olhar o luar ou as estrelas, Jairo gostava da noite em geral, daquele escuro confortador. Jairo via as luzes da cidade e tinha certeza que elas eram mais lindas que a luz do sol. O frio da noite junto com o clarão dos faróis era perfeito. Jairo sentia prazer em observar engarrafamentos: o furor de motoristas apressados, mais a beleza de luzes amareladas e avermelhadas… que lindo. Jairo tinha um sonho: — Eu quero ter uma casa no topo de uma montanha, onde eu seja sozinho e possa observar as luzes de alguma cidade, lá no meio do silêncio, apenas ouvindo as buzinas. Quero olhar pra cima e ver a lua, quero olhar pra baixo e ver a outra lua, a artificial. Jairo era meio louco.
Jairo também gostava de ouvir música no escuro, isso lhe tirava tanto a tensão quanto a atenção dos olhos, libertava sua imaginação e lhe fazia conseguir ver tudo o que o cantor via, mas numa versão sua. O escuro lhe colocava livros na cabeça, mas ele não conseguia escrever naquele breu. — Acho uma pena eu não ter desenvolvido visão noturna, eu seria um visionário! Jairo tinha alguns sonhos utópicos, mas bem divertidos. Se a mente de Jairo registrasse tudo o que já foi imaginado, sabe-se lá quantos livros infantis, gibis de super-heróis, filmes de ficção e utopias cômicas sairiam dali! A família de Jairo também o achava meio estranho. — Eles é que são normais.
Jairo era um cara legal. Se divertia ouvindo um bom blues e se embriagando num copo de coca-cola - tudo no escuro. Guardava anotações em sua mente e por lá mesmo elas ficavam, jamais eram encontradas novamente, o que é um desperdício. — Seria mais fácil se alguém gravasse minha mente. — E fazia de tudo fruto da sua imaginação. Com sua insanidade lúcida, passava a vida com muita fantasia e pouca memória. Por muitos atacado, mas também por muitos amado, mas isso não tem muita importância, quando se tem em sua mente todo o espaço-tempo do universo Jairo tinha, mas só porque Jairo era meio louco.
João, 60 Mil Anos
Aos Antigos Amigos
Se vejo a felicidade daqueles antigos amigos,
que vi e já não vejo mais,
bate-me uma felicidade
e uma satisfação abraçada de uma saudade…
Mas que bom é, meu caro leitor,
ver que aqueles antigos amigos
que nem sabemos mais em que primaveras caminham
estão podres de felizes!
Seus dentes quase caem de sorridentes!
Os presentes recebidos são os melhores presentes!
Os novos amigos são suas alegrias mais inocentes!
Que a eles toda a felicidade seja dada!
Porque ver aqueles que amo, mesmo que longe, bem;
ah, leitor… isso ninguém paga!
João, 60 Mil Anos
Lendo alguns cadernos,
vejo que vários poemas meus
não têm fim.
Não é que seja de mim,
é que eu não gosto muito de finais,
ainda mais porque os normais
não são finais felizes.
Veja só você,
que é o início
de todos os meus poemas sem fim.
João, 60 Mil Anos
Cícero numa visão egoísta e minha:
Ah, Dindi…
Se tu soubesses
como [me] machuca,
não amaria mais ninguém
além de mim…
Silêncio…
Às vezes a poesia me vem em silêncio
e muitas vezes no escuro.
Tenho pena de acender as luzes,
medo de espantá-la com meu barulho.
Um movimento brusco e ela sai da mente,
e vai embora para não sei onde.
Penso que poemas são como aves
que podem fugir com o rugir do meu lápis.
Os meus versos
discretos como o tic-tac de um relógio
que o som não ouço mais.
O bom da poesia é isso:
quando mais silenciosa,
mais acalenta a alma nossa.
João, 60 Mil Anos
Sua Leveza
Te vejo em um mundo tão pesado,
às vezes parece estar presa
presa em suas próprias desilusões,
que você mesmo criou. Sozinha.
Aquela menina que eu conheci serena,
alegre, leve, paciente e encantadora,
agora está cansada… pesada, sufocada.
Onde você esteve nos dias que não te vi?
Sonho com a leveza que vi em ti um dia,
sonho com aquela que era o que eu queria,
você morreu e eu não vi o que em ti acontecia.
Veja como está mal, não demore pra perceber!
Não se perca! Veja, pequena, muito podemos fazer!
Se houve salvação pra mim, também haverá pra você!
João, 60 Mil Anos
“
Sê sábio,
e aprende que a vida não é sobre você,
é sobre os outros!
Sobre quem tu amou,
quem tu ajudou;
não sobre quem fez por ti.
Pára de querer ajuda,
que ela só vem do Alto;
começa a ajudar,
faz da vida coisa bela
que assim ela vira novela
e ganha até final feliz.
A Vida é Bela, Manoel!
Aprenda, seu Manoel,
que viver é agradável,
que é bom ser amável,
e que abraço quadrado não é afável!
João, 60 Mil Anos
Sumiço
Hoje eu sumi.
Desapareci da frente dos que vi,
não sabem de mim aqueles com quem vivi
e isto faço para proteção deles.
Não sou muito bom em estar por perto,
causo faltas, falhas e decepções;
sigo o que não querem que siga,
e estou sempre na contra mão.
Então sumi,
desapareci,
fugi.
Agora pode não parecer,
mas sei que num feliz domingo de sol
eles vão me agradecer.
João, 60 Mil Anos
Abandonei todas as minhas paixões
Abandonei todas as minhas paixões.
Esqueci, nem liguei pra nenhum dos corações;
eu larguei, nem liguei se maltratei;
superei, pois sofri como só eu sei.
Deixe que meu presente virá,
deixe que nos próximos dias algo melhor florescerá,
e quando vier o que é perfeito
o imperfeito desaparecerá.
Chega de perda de tempo
só estava perdendo-o com crianças
que me queriam como passatempo.
Pois é, abandonei minhas paixões, leitor!
Siga meu conselho: reserve-se ao futuro!
Guarde-se ao grande amor!
João, 60 Mil Anos
Caroline não tinha medo de críticas
Muita gente criticava Caroline, julgavam como Caroline devia ser, apontavam o dedo, gritavam, maltratavam, judiavam. Caroline nunca se importou com essas pessoas, muito pelo contrário, o que mandavam-na ser, era uma direção do que ela não deveria ser — Sou grata. Ela não se importava do que falavam ou não, o que ela era, era a verdade. A sincera e irrepreensível verdade. Todos querem ser aceitados como são, mas não aceitam os outros como são. Então Caroline era, independente de aceitação.
Sem se esconder e sem medo de aparecer, ela sempre estava lá. Falava o que tinha feito, certo ou errado. Se diziam: — Isso que você fez é errado! — Ela respondia: — Já fiz. — E seguia fazendo. Caroline não tinha medo, palavras não machucam tanto quando se conhece a dor da carne. Quase blindada, o máximo que ofensas faziam, era dar um momento de reflexão. Reflexão que sempre respondia: — Eu não sou o que pensam de mim! — E assim Caroline sempre viveu.
Caroline tinha um dom que poucas pessoas têm. Podem chamá-la de louca, desaforada, irresponsável, insana ou o que for. Caroline tinha a virtude que metade do mundo queria: Caroline se conhecia.
João, 60 Mil Anos
A dor da gente
o mundo já cansou de sentir.
Estas terras em que pisamos
já não conhecem novidades
e nem o homem conhece mais.
Nada por aqui é novo.
Não é porque você chora
que o mundo pára pra consolar.
Muito pelo contrário,
ele gira mais rápido
porque tuas lágrimas regam a terra,
isso melhora o solo,
e o compartimento de propulsão terrestre.
Se é que isso existe.
Enfim.
Vê se não chora tanto,
triste até que dá pra ficar,
mas não solte tanto pranto,
porque choro não é pretexto pro mundo parar.
João, 60 Mil Anos
Novo Amor
Tristeza dos pobres sentimentais
é doer-se e condoer-se por muito
e às vezes por pouco também,
tudo depende da maré.
Eu agradeço pelas minhas dores,
que já foram muitas e fortes,
hoje não são tantas,
mas ainda existem.
Se paro pra pensar,
sofri por todos os meus amores,
nunca fui feliz com nenhum deles.
E sou feliz por isso.
Se tivesse sido feliz no primeiro amor,
não teria sido feliz como fui no segundo;
e se o segundo tivesse sido eterno,
como sentiria a beleza do terceiro?
Em meu amor atual - que já não faço contas,
creio que seja o nonagésimo -
também não estou sendo feliz,
mas quando entristeço, alegro-me.
A insatisfação do amor me consola,
saber que ele não é eterno me consola.
Na verdade o amor é eterno, e sempre será,
as pessoas é que mudam, e sempre mudarão.
Quando por amor sinto dor,
logo fico feliz, me sinto ótimo!
Vejo a luz do novo amor!
Que venha logo! Que venha o próximo!
João, 60 Mil Anos
“
Sou viajante por este mundo
e a ele nada devo,
ainda assim a ele muito entrego.
Não me cobre porquês,
doo-me sem medo
e me condenam por isso.
Mas que mal há
se o bem me faz bem,
se a saudade que dói
é combustível pra minha poesia?
Se sou escravo do meu dom
por ele tudo faço, tudo faria;
faço tudo sem medo
e não me culpo do que amo,
pois por ele - o meu dom -
eu morro todo dia.